Artigo idealizado inicialmente para ser publicado no Clarim Diário, mas após tantas reclamações por parte de Jonah Jameson, dono do jornal, a história acabou em tumulto, demissões e gritos de “você vai ouvir de meus advogados, Dilene!”

A essa altura, muitos já devem ter visto a primeira temporada do seriado Jessica Jones da Netflix. Não pretendo aqui fazer spoilers, mas sim uma análise mais ou menos crítica a respeito da execução do seriado em relação à dos quadrinhos. Essa não será uma análise comparativa, no sentido de dizer que “o texto impresso é melhor”, e falar de como o seriado “não foi fiel aos quadrinhos”, mas sim tentarei traçar as diferenças e como elas atuaram na construção de textos diferentes entre si.

Ao terminar o primeiro episódio, o gosto que ficou foi… amargo. Já foi possível perceber a execução criativa de alguns planos, que brincavam com o requadro, emoldurando a personagem. As atuações convincentes e o jeito “I don’t give a damn about my bad reputation” de Jessica permitem a imersão sem muitos problemas. A jornada a pé pelas ruas de uma Nova York nada embelezada, enquanto ela investiga o desaparecimento de Hope – não preciso destacar aqui a ironia e a construção de sentido desse nome, não é? – e, horrorizada, testemunha o ressurgimento de um nome do passado que ela luta muito para tentar esquecer. Kilgrave.

O episódio é tenso, e se eu fiz uma maratona de 3 dias para assistir a 13 episódios de uma série, é porque a tensão só se amplifica com o desenvolver da série. Mas a verdade é que não se aproveita o seriado – passa-se por ele para que aquela situação acabe logo. O desenvolvimento da trama, centrada no relacionamento passado de Jessica com Kilgrave, leva por caminhos dolorosos. Revivemos com Jessica seu passado e o remorso por atos dos quais ela se culpa, e somos incapazes de condenar seu hábito de afogar essa pilha de sentimentos ruins na bebida mais barata que puder encontrar.

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E essa projeção na heroína quebrada é desconfortante ao espectador. Os dilemas constantes que Jessica tem que lidar, seu receio em reencontrar esse vilão bem vestido e de elegante sotaque britânico permeia todo o núcleo de personagens principais. E a série, repetindo um jargão já falado em outros textos, é sobre abuso, sobre as consequências que um relacionamento abusivo acarreta. Jessica é uma mulher que luta não apenas para esquecer o passado, mas para superá-lo. E, com tendências autodestrutivas, uma baixa auto-estima, ela se sente obrigada a afastar todos aqueles ao seu redor, com medo de que essas pessoas sejam usadas contra ela em sua busca com ares de decadência.

O que me leva à ponte com o quadrinho – que não foi adaptado diretamente, nem se esperava que fosse, mas que serviu de base para a construção da personagem. Alias foi um dos principais títulos da série Marvel Max, um selo da Marvel para quadrinhos adultos. Os temas são mais pesados e menos “coloridos” que os heróis azuis, vermelhos e amarelos. Jessica abandonou a carreira de super heroína porque, olhando para dentro de si e vendo essa mulher quebrada, ela sabia que nunca poderia ser uma Capitã América.

Que coisa difícil que é esperar que uma pessoa seja algo além de uma pessoa, não?

Jessica desistiu de esperar mais de si mesma, e resolveu que viveria uma vida ordinária com um emprego que a permitiria se preocupar com a vida dos outros sem o custo emocional disso: uma detetive particular. Em meio a casos diferentes, Jessica aprende mais sobre si mesma, conhece pessoas, refaz laços de amizades há muito perdidos, e só então reencontra seu nêmesis.

Assim, a Jessica de Alias apresenta-se para o leitor mais cheias de nuances. Não que a personagem de Krysten Ritter não seja tridimensional. Ambas vão se revelando em cacos que compõem um todo, como uma investigação em andamento. Mas para o leitor dos quadrinhos, fazem falta as pequenas histórias fechadas, onde Jessica pode exercer suas qualidades sem necessariamente se sentir culpada disso.

O formato de histórias de investigação, presente no quadrinho, dá um caráter mais episódico à história, de maneira que ao final de cada arco é possível obter algum sentimento de realização, além de uma alternância entre histórias mais densas e outras mais leves. Em uma das mais divertidas, Jessica consegue passar a perna em um dos inimigos públicos dos mascarados, o empresário da comunicação Jonah Jameson. Era o que eu esperava de Jessica Jones: que histórias pequenas, isoladas, pudessem se ligar a um plot maior, esse sim ligado a Kilgrave. A obsessão do vilão com Jessica e a tentativa dela de exorcizar esse fantasma do passado tomam toda a temporada, em um crescendo de tensão difícil de aguentar.

O quadrinho, por pertencer à Marvel, conta com a participação de diversos personagens de maior destaque, o que dá legitimidade à narrativa de Jessica, mas não tira seu protagonismo. A série, em virtude de uma integração com o universo cinematográfico da editora, não poderia fazer tantas referências, mas boas adaptações foram feitas. A amizade com Carol Danvers, atual Capitã Marvel, foi transformada em uma amizade de infância entre Jessica e sua irmã adotiva, Trish Walker – e bons momentos de intimidade foram explorados a partir daí, embora do meio pro final, a dinâmica entre os personagens principais tenha ficado comprometida.

Ambas as personagens são quebradas: como qualquer pessoa comum, elas sofreram com experiências e buscam maneiras de tentar lidar com elas, nem que seja bebendo ou enxotando qualquer pessoa com quem elas poderiam se importar. Jessica é uma personagem redonda, nunca se revelando de cara para o espectador. Se estamos acostumados ao policial durão, bebedor de uísque e que tenta lidar com seu passado escuso, Jessica dialoga deliciosamente com esse tropo, em uma história de superação passada em um ambiente meio noir.

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Scott Lang hipnotizado pela Jessica Jones

Talvez não estejamos tão acostumados a ver personagens super poderosos se mostrando de maneira tão frágil e exposta. Heróis costumam ser modelos de comportamento e aparência, ícones. Jessica não é irretocável, como qualquer personagem bem escrita deveria ser. Com problemas bem humanos, ela faz de tudo para superá-los. Se isso não é um exemplo para o qual se possa olhar, eu não saberia dizer quem poderia sê-lo.

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Allana Dilene joga videogame desde o Mega Drive, mas nunca foi muito boa nisso. Adora RPGs, livros, quadrinhos, seriados, escrever, e tem um emprego nas horas vagas. Aspira ser muitas coisas: ser escritora, pesquisadora e astronauta