Sempre que eu leio um livro do Neil Gaiman, tenho a sensação de pegar um jogo no meio, sem ter lido o manual de regras ou o tutorial, e vou aprendendo a lógica particular com o andamento da história. Ao final, eu nunca sei se entendi bem quais são as regras, mas a experiência quase sempre é divertida, agradável e enriquecedora.

Essa leve desorientação não é ruim – a criação artística pode se dar ao luxo de inquietar o receptor, fazendo-o estranhar a realidade ao seu redor. Trazer questionamentos sobre o mundo, sobre as relações humanas e sobre nós mesmos é, alguns diriam, o exato propósito da produção artística em geral. E não é diferente em Deuses americanos.

Podendo ser classificado no subgênero de fantasia urbana, Deuses americanos conta a história de Shadow Moon, ex-presidiário que é libertado da cadeia para descobrir que a sua esposa, Laura, morreu em um acidente de carro. No caminho para o funeral, ele conhece o senhor Quarta-feira, e acaba fazendo um acordo para trabalhar com ele em tarefas questionáveis. Nesse processo, ele testemunha eventos e conhece pessoas que são, na verdade, deuses antigos trazidos por todos os povos que viajaram para os Estados Unidos no decorrer da História.

Capa da edição do livro, publicado atualmente pela editora Intrínseca

Acontece que esses deuses estão, em sua maior parte, esquecidos pelas pessoas e é exatamente da devoção e dos sacrifícios em sua honra que eles derivam poder. O que teria levado essas histórias e mitos ao limbo da memória coletiva? O fato de nós, mortais, voltarmos nossas atenções para outras divindades – a internet, a televisão em suas muitas formas, o dinheiro. Esses dois grupos de deuses, os “novos” e os antigos, começam, portanto, a preparar o terreno para um grande embate. E Shadow, na maior parte do tempo, transita ignorante do sentido dos sonhos e visões que passa a ter, sem entender muito bem o que está acontecendo ao seu redor. Nesse sentido, o leitor compartilha de sua visão – aos poucos, as regras do jogo vão se tornando mais claras, o que não garante que ele vai terminá-lo ganhando alguma coisa.

O romance de Neil Gaiman tem uma trama bem amarrada, focada na jornada de Shadow, mas carece de carisma com seu protagonista, e por vezes o texto em si. Carisma, porém, parece sobrar nos personagens coadjuvantes, e o livro conta com diálogos muito bem escritos. Quarta-feira é um velho que leva sua vida aplicando pequenos golpes sem muito orgulho, e está cercado de personalidades como o senhor Nancy e Mad Sweeney.

O ponto mais forte do texto reside, porém, nos contos que entremeiam a narrativa: histórias isoladas que explicam como os deuses teriam chegado à América, carregados por que pessoas, carregados por que pessoas. Se falta a Shadow uma capacidade de se relacionar com seu possível leitor em um nível mais emocional, os protagonistas destes pequenos contos transbordam humanidade, especialmente se considerar o pouco espaço dedicado a eles no texto.

Embora a série produzida pelo canal Starz partilhe da mesma premissa, as mudanças são notórias, como esperado. Tanto no que diz respeito ao enredo e à organização dos eventos, quanto em relação aos personagens e às formas que tomam.

Começando pelo próprio protagonista, Shadow (interpretado por Ricky Whittle) é uma grata surpresa: ele convence em sua desorientação, parecendo alguém assolado pelas muitas coisas que lhe acontecem de uma vez. Seus diálogos se diferenciam dos outros personagens, mérito da escrita e da atuação. Os eventos fantásticos que presencia deixam-no maravilhado, perturbado, inquieto, o que não parece acontecer com a sua contraparte literária.

Outros núcleos ganharam desenvolvimentos adicionais, a começar pela própria Laura (Emily Browning), que ganha tempo de tela para se desenvolver como personagem, de maneira gradativa e compreensível, evitando a armadilha do didatismo. Os deuses mantêm suas personalidades marcantes (e até meio canastronas, no caso de Quarta-feira, na interpretação de Ian McShane), e alguns foram positivamente melhorados com as liberdades tomadas pela série, a exemplo de Mídia (Gillian Anderson).

Parte desses desenvolvimentos explicam um pouco melhor a lógica de funcionamento do mundo criado pela narrativa, adicionando algumas camadas de verossimilhança e facilitando a entrada de um espectador que não tenha tido contato com o romance. A existência de um escritor interno à trama, o senhor Ibis (Demore Barnes), responsável por registrar as vidas daqueles personagens que viveram há muito em terras americanas reforça, por exemplo, o elo com o texto literário, e permite uma maneira lógica de inserir os contos isolados como parte do cenário. Tais adições também funcionam como pequenos foreshadowings – antecipações de eventos que acontecerão no futuro.

Nem tudo são flores, no entanto. Várias mudanças tomam proporções gigantescas, distanciando-se enormemente do romance de Neil Gaiman, e colocando um pouco em xeque o andamento da narrativa. Essas alterações podem ter sido planejadas pensando no formato de série semanal, passível de ser estendido, embora outros eventos tenham sido condensados. Muitos elementos diferentes foram apresentados no decorrer da temporada, e como uma teia em formação, os fios dessas narrativas parecem se encaminhar para se encontrarem no centro. No momento, porém, tudo parece meio… bagunçado.

Anubis pesando o coração de uma devota

Uma bagunça, porém, espetacular. A série, apesar de manter o tom de fantasia urbana, não economiza nos excessos e cria um visual genuinamente impressionante, que não faz questão nenhuma de ser realista. Detalhes que vão da abertura, que monta um totem eletrônico e diverso, à cena do julgamento pós-morte de Anubis (Chris Obi) criam um ambiente apropriado. Embora essa atenção ao espetáculo não seja uma novidade na série (o canal Starz também produziu o seriado Spartacus, que tinha uma linguagem… peculiar), a verdade é que Deuses americanos pedia um trabalho de composição de cena que desafiasse a realidade e que desorientasse o espectador. E foi bem-sucedida nisso.

Deuses americanos é transmitida pelo serviço de streaming Amazon Prime, e já foi renovada para a segunda temporada. No Brasil, o romance de Neil Gaiman conta com uma nova edição pela Editora Intrínseca.

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Allana Dilene joga videogame desde o Mega Drive, mas nunca foi muito boa nisso. Adora RPGs, livros, quadrinhos, seriados, escrever, e tem um emprego nas horas vagas. Aspira ser muitas coisas: ser escritora, pesquisadora e astronauta