orpos há muito decompostos, empalados em lanças compõem uma paisagem desolada, na qual uma mulher solitária, com o rosto parcialmente encapuzado caminha. Esses são os planos iniciais de Castlevania, a nova série animada produzida pela Netflix. Embora não seja possível dizer que esse início seja assustador, tem um ar clássico que, ao invés de incomodar, atiça a curiosidade. Como espectadora que conhece cerca de nada sobre a série de jogos, posso dizer porém que tenho um carinho especial pela estética gótica, pelas artes com figurinos extremamente detalhados e, em geral, pelo imaginário suscitado pelos jogos. Castlevania era um lançamento aguardado.

Drácula Vlad Tepes, o vampiro empalador, é abordado por Lisa, uma mulher que não demonstra medo diante de seus cacoetes misantropos. A moça nutre o desejo de tornar-se uma curandeira, e seu interesse pela ciência, seus traquejos despojados e seu caráter diferenciado dos outros humanos que conheceu chamam a atenção do vampiro, que a recebe em seu castelo gótico-tecnológico.

O otimismo dos dois é cortado com a morte de Lisa, condenada pela igreja com as acusações clássicas de bruxaria. Drácula, obviamente, não deixa isso passar, e com um espetáculo de chamas infernais, anuncia que em um ano, voltará para distribuir caos, destruição e morte. Promessa que cumpre, e que serve como estopim para os eventos que a série se propõe a contar, baseando-se livremente no game Castlevania III: Dracula’s Curse.

A série se utiliza muito bem de elementos bem estabelecidos junto ao público conhecedor dos jogos: o exército de criaturas da noite, as nuvens de morcegos, as imensas catedrais de tetos pontudos e vitrais coloridos, e um clima eternamente cinzento que envolve os vilarejos de Wallachia. Surpreende, porém, o explícito da violência física – corpos mutilados, entranhas e vísceras à vista. A surpresa não veio da escrita de Warren Ellis, mas sim pela escolha de mostrar graficamente os horrores de que são capazes as criaturas da noite.

O uso excessivo desses elementos pode soar exagerado e artificial, mas a verdade é que funciona. Castlevania constrói personagens cujas falas podem até ser previstas em determinados momentos, mas que não chegam a cair na armadilha do pastiche – de soar tão excessivo e previsível ao ponto de estragar a experiência da audiência. Ao invés de cair no clichê fácil, a série dosa bem esses elementos, equilibrando-os com humor, especialmente com o blasé Trevor Belmont, último membro da casa Belmont, excomungado da igreja, exilado, condenado a vagar entre territórios bebendo e arrumando brigas em tavernas imundas.

O desenvolvimento das cenas de ação salta aos olhos: o uso de plataformas multiníveis, e as referências a soluções adotadas em jogos (como pendurar-se entre engrenagens para chegar a um outro ponto do mapa, ou saltar sobre muretas para despistar perseguições em cidades) atuam na criação de um estilo mais individual. Esses elementos, se bem utilizados na já confirmada segunda temporada, poderão talvez consolidar uma estilística diferenciada no diálogo entre o audiovisual e os games.

É notável o esforço de respeito ao material original – e não poderia deixar de ser diferente, quando se lida com uma franquia bem estabelecida junto ao público. No entanto, se a maioria dos personagens que aparecem têm algum arco de desenvolvimento individual, havendo inclusive alfinetadas em questões de fé e clero católico, as duas personagens femininas que aparecem e têm falas poderiam talvez ter arcos de evolução melhor trabalhados.  Isso se aplica à Sypha Belnades, que apesar de ter falas divertidas e agência sobre si mesma – e trazer para a tela efeitos mágicos bem legais – tem pouco desenvolvimento individual, o que poderá ser desenvolvido posteriormente.

A escolha do elenco foi cuidadosa, com atores consolidados emprestando sua credibilidade aos personagens: Richard Armitage (Thorin Escudo de Carvalho, do Hobbit) dá voz a Trevor Belmont, enquanto Graham McTavish (o dúbio Dougal MacKenzie, de Outlander) interpreta o próprio Drácula. A dublagem, porém, pode soar estranha à audiência acostumada a animes, embora a atuação não deixe a desejar. Além disso, Castlevania tem uma escrita sólida e coerente, que não se deixa cair em “roteirismos” – mérito de Warren Ellis (roteirista do saudoso The Authority, Planetary entre outras coisas, como o arco Extremis do Homem de Ferro). A série conta também com a produção executiva de Adi Shankar, conhecido pelas suas adaptações não-oficiais de personagens da cultura pop (como o curta-metragem do Justiceiro, o Dirty Laundry).

Castlevania tem quatro episódios, é uma produção da Netflix e já teve sua segunda temporada confirmada, com a mesma equipe criativa.

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Allana Dilene joga videogame desde o Mega Drive, mas nunca foi muito boa nisso. Adora RPGs, livros, quadrinhos, seriados, escrever, e tem um emprego nas horas vagas. Aspira ser muitas coisas: ser escritora, pesquisadora e astronauta