“Aquela era a única frase de perdão na sintaxe de armamento que eu tinha equipada em mim. Todas as outras eram sentenças inequívocas de morte.”

Altered Carbon, de Richard K. Morgan, é um romance de ficção científica com uma pegada bem noir: pela voz e narração de Takeshi Kovacs, somos levados pelos passos violentos de uma investigação envolvendo o assassinato de um milionário, Laurens Bancroft. Uma trama aparentemente bem manjada, se não fossem as particularidades do cenário criado por Richard Morgan em seu mundo transhumanista.

O fato é que o próprio Bancroft contrata Kovacs, uma espécie de ex-militar mercenário, arrastando sua mente de um dos planetas colonizados para os primórdios da civilização humana, a Terra. No futuro de Altered Carbon, a mente não está ligada necessariamente a um corpo. Ela pode ser digitalizada e transferida, permitindo assim viagens espaciais com os mesmos indivíduos. Morrer ou continuar vivendo em diferentes corpos – chamados na narrativa de sleeves – parece ser uma questão de dinheiro. Se você tem, pode viver durante séculos. Se você não tem, talvez consiga pagar um financiamento de uma vida inteira.

Takeshi Kovacs, o arquetípico protagonista durão hard-boiled, estava preso, condenado a uma sentença de mais de cem anos e foi liberado em um caráter condicional: se o mercenário conseguir resolver a morte de Bancroft ocorrida em circunstâncias nebulosas – seguida por um “re-sleeving” do qual ele não conseguia se lembrar das últimas 48 horas – ele estaria livre, com uma quantia generosa no bolso e poderia voltar para qualquer planeta que quisesse. Caso ele não consiga, será devolvido para a prisão para cumprir o resto de sua pena.

“Ele me arrastou por metade do universo conhecido, me jogou em um corpo novo e ofereceu um acordo elaborado de tal forma que eu não podia recusar. Pessoas ricas fazem isso. Elas têm o poder e eles não veem motivo para não usá-lo. Homens e mulheres são apenas mercadoria, como todo o resto. Armazene-os, transporte-os, decante-os. Assine no final do contrato, por favor.”

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Fanart. Créditos: http://nemanja-s.deviantart.com/art/Takeshi-Kovacs-458341842

Como se pode pensar, Kovacs aceita o acordo, e logo se vê envolvido em uma trama rocambolesca, envolvendo outras pessoas tão poderosas quanto o seu contratante, prostíbulos, clínicas ilegais onde corpos são utilizados como sleeves alternativos e, claro, a polícia. Vários elementos são apresentados ao leitor, e como um emaranhado de fios eletrônicos, o caminho para desembaraçá-los é difícil, porém, proveitoso. Richard Morgan amarra as pontas do romance, embora algumas delas ele só o faça nas últimas páginas do livro.

O diálogo com a literatura policial, bem como com outros textos de ficção científica, é intenso e permeia toda obra. Para o leitor mais familiarizado com os gêneros, algumas referências sutis não devem passar despercebidas. Há tropos como a mulher fatal que tenta desviar o caminho do investigador, ou a prostituta que gostaria de mudar de vida mas, como várias outras garotas, não viu um outro caminho.

No entanto, também há espaço para outras representações femininas diferentes. A policial Kristin Ortega, com quem Kovacs faz uma espécie de parceria, é uma favorita em particular. Não só porque ela é “uma mulher em um mundo dominado por homens”, para usar o clichê, mas porque ela se mostra uma personagem cheia de nuances que a tornam mais humana: tentando equilibrar seu interesse pessoal na investigação de Kovacs, por muitas vezes sua conduta policial chega a ser comprometida, e os conflitos que movem a personagem conseguem ser trabalhados de maneira satisfatória, embora ainda sob o ponto de vista do protagonista Kovacs.

O livro também é violento. Richard K. Morgan não alivia a mão em várias passagens de ação – o que me fez pensar nos valores de uma possível adaptação desse livro para série da Netflix, conforme foi anunciado em janeiro de 2016, e como elas poderiam ser criativamente aproveitadas no audiovisual. Há momentos explícitos de tortura, porém, que podem perturbar um leitor despreparado, e embora essas passagens sirvam para demonstrar os valores da sociedade representada, elas requerem um certo estômago.

O texto de Morgan é mediano, com algumas passagens inspiradas e imagens inusitadas, como as que servem de citações para esta resenha. O cinismo e a desesperança inerentes ao personagem Kovacs são muito bem utilizados no texto, mas o uso de referências sem explicação prévia ou posterior pode incomodar. Além disso, a repetição de termos em situações diferentes, como “ela sorriu fracionalmente”, “me virei de modo fracional” soa como um problema de falta de edição.

Altered Carbon é seguido por outros dois livros, Broken Angels e Woken Furies. Uma leitura proveitosa para apreciadores dos gêneros, que cativa mais pelas possibilidades de cenário construído e pelos personagens adjacentes do que pelo protagonista.

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Allana Dilene joga videogame desde o Mega Drive, mas nunca foi muito boa nisso. Adora RPGs, livros, quadrinhos, seriados, escrever, e tem um emprego nas horas vagas. Aspira ser muitas coisas: ser escritora, pesquisadora e astronauta