Estrelado por Scarlett Johansson e dirigido por Rupert Sanders, o filme Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell entra em cartaz no Brasil e já estreia rodeado de polêmica desde o ano passado.

Um dos principais destaques do filme, enquanto sua divulgação foi aumentando e a data de estréia se aproximava, era quanto à atriz Scarlett Johansson, escalada no papel da protagonista Motoko Kusanagi, protagonizando um dos principais casos de “whitewashing” – o “embranqueamento” de personagens de outras raças, origens ou contextos – dos últimos tempos. O assunto deu o que falar e rendeu diversas discussões na internet.

Até mesmo deixando a polêmica de lado, nada aumentava a esperanças de que o filme seria bom. Logo junto do anúncio de Scarlett Johansson no papel principal, foi anunciado o diretor para o longa metragem: Rupert Sanders, de Branca de Neve e o Caçador (2012). Ao olhar os trabalhos dele, é possível notar um passado recheados de sucessos… em propagandas. Ele trabalhou em diversos comerciais ligados ao universo nerd (como em um comercial de Halo 3) e chegou a ganhar prêmios em Cannes, mas seu trabalho com cinema é pouco, sendo Ghost in the Shell seu segundo grande projeto.

Mas, até aí, tudo estava em aberto. Olhando por uma lente positiva, Johansson é uma atriz reconhecida internacionalmente por grandes papéis e tem bastante experiência. O diretor, apesar de relativamente novo no mercado, podia surpreender.

Até que soltaram o trailer. Foi aí que o medo começou a aumentar de vez.

Um dos principais youtubers americanos de anime, Digibro, fez um vídeo em seu vlog com o título “Ghost in the Shell’s Trailer SUCKS” (“O trailer de Ghost in the Shell É UMA DROGA” em tradução literal), em que ele dissecou e vociferou por quase 20 minutos sobre como esse filme tinha tudo para ser um filme hollywoodiano com a cara de Ghost in the Shell, mas sem sua essência: as principais questões filosóficas e psicológicas, que tornaram o filme animado de Mamuro Oshii de 1995 uma das principais obras de animação de todos os tempos.

Mas ele estava certo? Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell é um filme ruim?

Depende. Se você conhece alguma outra obra da franquia (o mangá de Masamune Shirow, de 1991, o filme de 1995 ou o anime Ghost in the Shell: Stand Alone Complex, de 2003), então sim, o filme é fraco em perspectiva. Mas o filme é ruim por si só?

A principal sensação que o filme transmite é que tentaram imitar a estética das obras anteriores. Algumas cenas são recriações quadro a quadro da animação original e que ficaram muito boas – até porque o diretor tem um histórico premiado na publicidade e aparenta saber vender um produto. Mas isso leva a outro ponto: a direção do filme é bem fraca.

Scarlett Johansson (que no filme é conhecida apenas como Major) está com cara de nada o filme todo e deixa muito a impressão que foi por conta da inexperiência do diretor em coordenar atores. A única dinâmica entre os atores que pareceu boa foi ao lado de Pilou Asbæk, que interpreta o personagem Batou. Mas essa relação vem de longa data, já que ambos trabalharam em outro filme estrelado pela atriz, em Lucy (2014).

Além disso, a maior atrocidade para quem é fã da franquia foi de que o roteiro foi claramente suavizado pra alcançar um público maior. Hollywood possui o histórico de se apropriar de obras de outros países e culturas e transformá-las em produtos consumíveis para os americanos, e Ghost in the Shell foi apenas mais uma vítima. Essas adaptações fazem com que o filme transmita a mesma sensação de um filme da Marvel, mas com a mesma estética futurista de Ghost in the Shell, de 1995. Logos nos primeiros 5 minutos de filme, é explicado um dos principais pontos de reflexão do filme logo de cara, e essa mesma tecla é martelada por todo o longa. O filme faz questão de apresentar uma resposta, em contra ponto com o filme de 1995, que deixa a questão em aberto para a interpretação do espectador tirar suas próprias conclusões e que dá tanta força ao anime.

Vigilante do Amanhã não é péssimo. Ele sabe divertir e tem uma estética incrível, totalmente fiel à franquia e com uma trilha sonora forte. Tirando o terço final do filme, onde somos bombardeados a um monte de CG com um vilão bem meia boca a la Marvel, o filme é interessante, mas acaba como uma ficção científica totalmente esquecível – o que entristece qualquer fã.

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Colecionador de HQ’s, games, tralhas e bugigangas, absurdamente apaixonado pelo gênero Fantasy RPG e ainda sonha com o dia em que Qui-Gon Jinn descubrirá sua alta taxa de midichlorians. Fã de Alan Moore, Grant Morrison, Marjane Satrapi, Alison Bechdel, Laerte, e mais uma turma gente fina ae