Gravity Falls (no Brasil, Gravity Falls – um verão de mistérios), série animada do canal Disney XD e criada por Alex Hirsch, conta com duas temporadas disponíveis atualmente na Netflix. O desenho conta a história de Dipper e Mabel, dois irmãos gêmeos que vão passar as férias de verão na cidade que intitula a série, na companhia do tio-avô Stan, um egoísta charlatão dono de uma atração para turistas chamada Cabana dos Mistérios.

Utilizando-se de uma competente estrutura episódica, cada capítulo conta uma pequena história situada entre a investigação e aventura, comumente com algum mistério sobrenatural sendo resolvido. Tudo isso com um roteiro que consegue equilibrar um humor inteligente, que funciona pelo menos em duas camadas: a primeira, a do público infanto-juvenil ao qual se destina a série, e outra, a dos pais e/ou adultos que possam captar várias referências recorrentes durante a série (diferentes obras de terror e horror, história estadunidense, dentre outras).

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Mabel e suas paixonites de adolescência.

E o que parece ser uma divertida série animada, de nível semelhante a Padrinhos Mágicos, vai se construindo como uma trama pensada com cuidado, cheia de foreshadowings (antecipações narrativas, apresentadas normalmente através de algum elemento sem significado aparente, mas que ganha importância em momentos posteriores) e pequenas cifras. Tudo, inicialmente, gira em torno de Dipper encontrando um diário, numerado com um 3 na capa. O diário, de autoria desconhecida, fala sobre diversas criaturas que habitam as cercanias da cidade – gnomos, lobisomens – e suas entradas vão servindo como uma trilha de migalhas de pão para o grande plot envolvendo uma entidade habitante de outros planos: Bill Cipher.

Esse é o momento em que as coisas começam a ganhar tons lovecraftianos: a série não perde seu tom de humor e certamente continua divertida, mas qualquer ilusão de “imaturidade” se desfaz. Os episódios mais soltos, sem ligação aparente, vão dando lugar a episódios ligados entre si, quanto não continuações diretas, culminando com uma história bem amarrada, e capaz de equilibrar temas bem pesados com momentos de leveza, evitando uma tensão angustiante.

Os personagens do desenho são bem escritos: Dipper e Mabel, apesar de gêmeos da mesma idade, demonstram interesses claramente diferentes, além de maneiras diversas de encarar os fatos com que se deparam. A relação entre eles nem sempre é pacífica – quem tem irmãos sabe bem como isso se dá, afinal – mas muitos valores positivos podem ser retirados de suas interações. O tio-avô Stan, por sua vez, até parece um tipo de velho ranzinza caricato, mas vários eventos na trama demonstram uma personalidade complexa. Um verdadeiro exército de coadjuvantes complementa o cenário, tornando uma história que poderia cair no absurdo e no non sense em um projeto que demonstra maturidade e competência narrativa.

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Basta colocar um chapéu em uma pirâmide pra ela ficar mais simpática, certo?

 

Vários easter eggs povoam a linguagem do desenho: cifras básicas escondidas em elementos de cenário, personagens que performam rituais mágicos falando de trás para frente, e o impacto dessas pequenas referências é tão grande que uma profusão de vídeos e posts se espalham na internet, revelando algumas dessas pequenas surpresas. A coisa chegou ao ponto de o criador Alex Hirsch promover uma caça ao tesouro, cujo objetivo era encontrar a estátua de um dos personagens da série (você pode ler mais sobre ela aqui, em inglês)

Como não poderia deixar de ser, outros temas mais amenos permeiam as narrativas de Gravity Falls: amadurecimento pessoal, relacionamentos (entre familiares, amigos e pretendentes) e mesmo discussões de gênero vão adicionando diferentes significados ao desenho, que, em uma última nota, está com as duas temporadas disponíveis na Netflix.

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Allana Dilene joga videogame desde o Mega Drive, mas nunca foi muito boa nisso. Adora RPGs, livros, quadrinhos, seriados, escrever, e tem um emprego nas horas vagas. Aspira ser muitas coisas: ser escritora, pesquisadora e astronauta