É costume do Bonus Stage trazer a opinião de cada um de seus integrantes sobre os cinco melhores jogos do ano. Eu e a Glória Pires, porém, não podemos opinar sobre os games (essencialmente porque eu costumo jogar as coisas no ano passado, e se somar todos os jogos que eu consegui terminar eles não passam de cinco), então vim aqui falar dos cinco títulos mais legais que li em 2016.

nao-sou-capaz-de-opinar

5º – Leviathan Wakes  – James S. A. Corey (Série The Expanse)

leviathan_wakesEscrito James S. A. Corey (pseudônimo de Daniel Abraham and Ty Franck), o primeiro romance da série de livros The Expanse serviu de base para a primeira temporada da série homônima do canal SyFy. Aqui, a Terra conseguiu ser bem-sucedida em um processo de colonização espacial, estabelecendo colônias em Marte e no Cinturão de Asteroides, situado entre Marte e Júpiter, além de outros satélites naturais, como a Lua e Ganimedes. Sob o ponto de vista alternado de dois personagens, o romance fala sobre a destruição de uma nave cargueira, a Canterburry, que levava água para uma das maiores colônias do Cinturão, Ceres, e as pesadas consequências políticas que esse e outros ataques têm. Leviathan Wakes consegue equilibrar uma trama política complexa e intrincada, sem necessariamente abrir mão de desenvolver seus personagens.

Por que eu listei esse título: os autores conseguem, de maneira sucinta e sem cair em um didatismo chato, expor um cenário vasto e bastante verossímil, além de um mundo bastante diverso. Detalhes como a criação de uma linguagem específica para os habitantes do Cinturão, há gerações isolados dos costumes terráqueos, bem como um cuidado pseudo-científico para justificar as tecnologias existentes na história dão um valor especial ao romance. O livro também conta com umas tiradas espirituosas por parte de alguns personagens, o que consegue equilibrar situações tensas.

4º – A Fonte Âmbar – Ana Lúcia Merege

afonteambarÚltimo livro da série Castelo das Águias, o romance de Ana Lúcia Merege narra as tensões crescentes em torno de mais uma invasão a Scyllix, cidade-estado que atua como espécie de guardiã e barreira militar da chamada Liga das Terras Férteis. Apesar de todos os nomes listados, o livro funciona bem como leitura independente dos outros dois da série, embora certamente será melhor aproveitado por quem já está familiarizado com o cenário e os personagens. Anna, mestra de sagas, e seu esposo Kieran, professor e mago poderoso, são chamados para ajudar a cidade na preparação do conflito vindouro. Uma trama política, porém, logo é descoberta, e o casal tenta lidar com interesses outros enquanto o passado do misterioso Kieran parece vir assombrar os protagonistas.

Por que eu listei esse título: a escrita de Ana Lúcia é muito bem cuidada, o que torna a leitura de seus textos um prazer por si só. Conhecer o desfecho de uma série que venho acompanhando desde o início de sua publicação também tem seu apelo, além da apresentação de vários outros personagens que expandem o cenário e dão ao mundo grande riqueza. Ana Lúcia consegue dar personalidade a diferentes pontos de vistas – tarefa nem sempre fácil de se cumprir.

3º Asterios Polyp – David Mazzucchelli

tumblr_np4b1ibn231qg4utwo1_1280Asterios Polyp é um renomado arquiteto teórico, que chegou ao sucesso financeiro e amoroso, mas caiu em uma espiral de decadência profissional e pessoal. Após um incêndio que lhe tirou os últimos bens que possuía, saiu viajando até encontrar emprego como ajudante de mecânico. Misturando memórias de sua vida anterior com eventos banais da pacata cidade onde está morando de favor, a história de Asterios fala sobre dualidades, e a dolorosa percepção de nossas próprias falhas e problemas enquanto pessoas.

Por que eu listei esse título: conhecia o trabalho de Mazzucchelli desde A cidade de vidro, e não deixei de me encantar com a maneira particular do autor de fazer quadrinhos. As páginas desse quadrinho são recheadas de simbolismos e refletem um enorme conhecimento das potencialidades da linguagem de HQs. Além da história excelente, centrada em temas facilmente relacionáveis, a HQ é uma verdadeira aula de como escrever e desenhar quadrinhos.

2º A amiga genial – Elena Ferrante

elenaferranteA amiga genial segue a estrutura de um “bildungsroman”, como história que narra os eventos de uma vida inteira, passando por todos os momentos importantes na vida de alguém. A narradora, Elena Greco, motivada pelo desaparecimento de Lila, sua melhor amiga, conta a história da infância e adolescência compartilhadas com sua brilhante amiga. Com uma naturalidade desconcertante, o texto narra eventos de uma infância pobre e violenta, retratando uma Nápoles no pós- segunda guerra, e as marcas que tais eventos são capazes de deixar em pessoas adultas.

Por que eu listei esse título: Elena Ferrante consegue contar uma (talvez falsa) biografia sem cair nos clichês melodramáticos nem em um retrato social que poderia entediar. O seu texto fluido constrói imagens comoventes, e o retrato de uma amizade feminina, sem ceder aos fáceis lugares-comuns de rivalidade, é certamente uma lufada de inovação. A veia pessoal que permeia o romance consegue envolver a leitura.

1º Contato  – Carl Sagan

contatolivroÚnica ficção do primeiro apresentador de Cosmos, Contato narra a história de Eleanor Arroway, radioastrônoma que, líder de um projeto de pesquisa, recebe uma mensagem vindo da estrela Vega. O romance lida com as consequências políticas da descoberta de vida alienígena em uma escala global, situado no contexto de Guerra Fria, além da jornada da própria Ellie e seu relacionamento com a ciência e a religião. Sem duvidar da inteligência do seu leitor mas sem adotar uma escrita críptica, Sagan consegue abordar complexos conceitos científicos, tornando a leitura ainda mais aprazível.

Por que eu listei esse título: por uma miríade de razões. O texto de Sagan, publicado em 1985, consegue trazer uma consciência política e intelectual surpreendentes (talvez não tanto assim se você já conhecesse os outros títulos dele), mas sem se deixar levar por um cientificismo elitista. Sagan discute temas como o machismo na linguagem e na academia, divergências políticas, crenças religiosas sem esquecer de que seus personagens seriam, afinal, humanos.

Compartilhar
Allana Dilene joga videogame desde o Mega Drive, mas nunca foi muito boa nisso. Adora RPGs, livros, quadrinhos, seriados, escrever, e tem um emprego nas horas vagas. Aspira ser muitas coisas: ser escritora, pesquisadora e astronauta